Cláudio faz entregas e gosta de ser chamado de Motoqueiro Esterelizado

No telefone, chamamos por Cláudio. Era ele quem tinha atendido? A resposta deu o tom da conversa. “Cláudio é um homem que já não existe mais! Agora é o Motoqueiro Esterilizado”, disse a voz masculina, do outro lado da linha. 

De fato, nas últimas semanas, é como se o personagem tivesse tomado conta. Das 7h às 21h, todos os dias, é possível encontrar Cláudio em cima de uma moto em algum lugar da cidade. Seja no Rio Vermelho, onde mora, seja no Uruguai ou em São Cristóvão. Em tempos de isolamento social pelo coronavírus, ele encarnou aquele que resolve as coisas para quem não pode sair de casa. 

Faz entrega, compra remédio, faz mercado. Tudo isso sempre com álcool em gel e máscara, além de um bordão que faz questão de entoar em cada lugar que chega. “Ó o Motoqueiro Esterilizado aí, ó!”, anuncia, entre uma entrega e outra. Diariamente, as aventuras e surpresas da rotina na motocicleta têm sido documentadas e compartilhadas por ele.

Em seu perfil no Facebook, criou o Diário do Motoqueiro Esterilizado, com pílulas de encontros, reações e experiências em forma de relato. Além dos textos em tom bem humorado, inclui fotos e vídeos de cada situação 

“O Motoqueiro Esterilizado é um arauto da quarentena. Muita gente não entende, mas eu penso nos meus pais que moram comigo, no meu filho que preciso garantir o sustento e nas pessoas isoladas que precisam das coisas”, explica ele. 

Na motocicleta
Aos 53 anos, Cláudio é gestor ambiental de a ONG Paciência Viva, que trabalha com conscientização ecológica e reciclagem. Em um turno oposto, faz serviço de motoboy para os amigos. No ano passado, até tentou trabalhar como entregador por aplicativo, mas a chacina que matou quatro motoristas por app em dezembro fez com que ele desistisse. 

Desde então, decidiu ficar apenas com a rede de amigos e conhecidos. Mas, desde que os efeitos da pandemia do coronavírus começaram a ser mais sentidos na Bahia, as coisas estavam mais paradas. As atividades na ONG foram interrompidas e a renda passou a vir apenas dos do serviço de motoboy. 

“Eu vi a necessidade de, ao mesmo tempo, atender os pedidos de amigos e também de pessoas com doenças crônicas, que têm medo de sair. Pensei: é agora. Vou  fazer as coisas acontecerem”, conta. 

Cláudio sabia que os motoboys e entregadores se encaixavam entre os serviços essenciais. Assim como trabalhadores de segurança, da área de saúde e de transporte, eles não podem parar. Mas não bastava fazer o serviço normal. Afinal, os tempos estão longe da normalidade. 

“Me veio a ideia, foi uma espécie de transe. Dei um ‘upgrade’ e resolvi criar um personagem que me inspira, porque andar livremente pela cidade é uma inspiração. Saber que você está podendo contrair o risco a qualquer hora ou ser um vetor de transmissão me torna um herói e um anti-herói. Me sinto as duas coisas ao mesmo tempo”, diz. 

Isso começou antes mesmo que a prefeitura de Salvador e o governo do estado decretassem os principais decretos de restrição de circulação de pessoas, a partir do dia 16 de março. Alguns dias antes dali, Cláudio já tinha percebido que um novo padrão de comportamento começava a se espalhar. 

Um dos primeiros serviços foi para um amigo. Precisava de uma compra personalizada para uma pessoa que fazia aniversário. “Eu percebi que, se uma pessoa está com receio de sair para adquirir um presente é porque as pessoas estão realmente angustiadas e com medo”, lembra. 

A maioria dos clientes faz parte de algum grupo de risco, principalmente idosos ou pessoas com alguma doença crônica associada.

“Esse nome acabou ficando na cabeça das pessoas porque, em todo lugar que eu chego, eu grito: ‘Ó o Motoqueiro Esterilizado aí, ó”. 

Rotina
O dia começa cedo. Cláudio acorda às 5h da manhã e aproveita para escrever os pensamentos sobre os dias anteriores. É nesse período que consegue escrever pequenas anedotas sobre os acontecimentos da semana. 

O gosto pela escrita já é antigo. Ainda que não tenha nada publicado, ele faz parte de coletivos de escrita há alguns anos. Escreve até resenhas de futebol. “Adoro escrever sobre os envolvidos, sobre as circunstâncias. E eu volto com vontade de escrever. Se tivesse mais tempo, estaria fazendo mais quatro, cinco posts por dia”, afirma. 

A recepção das pessoas tem sido boa. É quase um conforto para alguém que se sente solitário. “Escrever é um ato solitário. Mas se uma só pessoa leu, já não me sinto tão só”, completa. 

Geralmente, às 7h, já sai para atender clientes. Por enquanto, ainda são três, quatro entregas por dia. Podem demorar alguns minutos, no caso de entregas, ou até mesmo horas, se for para fazer uma feira no mercado, por exemplo. Entrega muito em bairros como Pituba, Itaigara, Uruguai e Doron, além do próprio Rio Vermelho. 

Mas o Motoqueiro Esterilizado avisa: pode ser em qualquer lugar da cidade. Ao longo da conversa, repetiu algumas vezes que acreditava se tratar de uma rede de solidariedade. 

“Tive uma sensação muito boa quando um professor de Química me mandou um WhatsApp. Ele disse que era químico e sabia fabricar sabão. Disse que podia fazer isso para pessoas em situação de rua e catadores que precisam fazer asseio e não têm como”, conta. 

O professor perguntou se ele poderia entregar a essas pessoas. “Eu fiz uma lista e comecei a entregar. Eu sei onde estão os catadores e os moradores de rua. Esse professor, sim, é um herói”, elogia. Ao todo, Cláudio distribuiu 150 litros de sabão caseiro na última segunda-feira (30). 

Há casos também como o de Seu Antônio, cujo sorriso chamou atenção na foto publicada no Diário do Motoqueiro. Cláudio tinha ido entregar uma marmita no prédio dele. 

Cláudio leva alimentos e remédios para quem mais precisa (Foto: Arisson Marinho/ CORREIO)

“Já tinha entregado e estava ali me preparando para a próxima saída. Eu esterilizo a mão e pego o própolis sempre. Baixei a máscara e botei o própolis na boca, porque sempre vou tomando cinco gotinhas para, no fim do dia, dar 40. Ele estava só olhando. Aí eu perguntei se ele queria um pouquinho. Ele deu um pulo de dentro da cabine e saiu querendo sim”, conta.

Resultado: Seu Antônio tomou umas dez gotas de própolis, Cláudio saiu feliz e os dois acabaram quebrando o gelo. 

Uma corrida para entrega pode ir de R$ 10 a R$ 20, baseado até na própria tabela dos aplicativos. Uma ida ao mercado com lista de compras, porém, custa a partir de R$ 35. Como a bag que usa para guardar as mercadorias costuma caber de 18 a 20 itens, se a feira for maior do que isso, ele acaba tendo que fazer duas viagens. 

Esterilização
Entre cada uma das incursões, há a limpeza. O álcool em gel não sai de perto. Mas é quando chega em casa, entre 20h e 21h, que a limpeza é mais forte. Por morar com os pais idosos – a mãe com 87 e o pai com 93 anos -, mudou toda a rotina. Nunca repete roupas, deixa sapatos do lado de fora de casa. Só fala com os pais depois do banho e, mesmo assim, sempre a mais de um metro e meio de distância. 

Cláudio sabe que a situação não é ideal. Se tivesse qualquer outra opção, admite, não estaria fazendo entregas. 

“Eu encontro o medo todo dia quando volto, quando chego em casa no meu quarto. É o medo de contaminar meus pais, meus amigos. A gente nem sabe o grau, se é mais ou menos do que estão dizendo. Só sei que está morrendo muita gente”, diz. 

O Motoqueiro Esterilizado vai continuar existindo até o fim da pandemia. Na visão de Cláudio, o tal personagem faz com que ele se torne herói e vilão ao mesmo tempo. 

“Algumas pessoas me veem chegando com o alimento e com o medicamento. Outras me veem chegando com a possibilidade de ter o vírus. É difícil”, diz. Mas ele confia que tanta esterilização e cuidados – e tanto própolis! – vão lhe proteger de qualquer coisa. Enquanto o coronavírus não sai de cena, ele vai contando as histórias dos personagens que encontra pelo caminho. 

E se alguém mais quiser virar personagem, é só chamar no Zap: 71 98834-9114. 

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