Elaine garantiu o pagamento da matrícula do filho e até uma festinha com o dinheiro do caixa, que ela não abre mão de participar

A assistente de Recursos Humanos Elaine Adriana de Jesus ganha R$ 2 mil por mês. Tão importante quanto pagar uma conta de luz, é também entregar nas mãos de uma senhora de muita confiança R$ 300 todo mês e torcer para que o Caixa rode logo e que seu ponto chegue. 

“Participo de caixa há sete anos é a única maneira que eu consigo poupar. Até tentei fazer uma poupança no banco quebrei o cartão de crédito para não cair na tentação de sacar, mas não teve jeito: no dia seguinte eu estava lá solicitando um novo e tirando o dinheiro que tinha na conta”, afirma.  

O ‘caixa’ é aquele grupo formado por amigos, parentes ou colega de trabalho em que cada um contribui uma determinada quantia todo mês e aí é aguardar a data para receber o seu ponto. O último que participou resgatou R$ 3 mil, dinheiro que usou para matricular o filho Miguel na escola e também fazer a sua festinha de aniversário. “Ganho meu salário, mas imagino que só recebo R$ 1,7 mil porque os R$ 300 nem existe. É do caixa”.

E Elaine não é a única que coloca tanta fé na poupança informal. Nos últimos 12 meses, os baianos foram os que mais fizeram uma ‘caixinha’. Os dados são de um levantamento feito pelo Banco Pan, que aponta que 10% dos que pouparam algum valor, utilizaram esse método. Ainda de acordo com o levantamento, apesar de ser bom de caixa, o baiano ainda passa por dificuldade na hora poupar a longo prazo. O estado apresentou a menor taxa (9%) entre os brasileiros que fazem algum tipo de reserva para a aposentadoria. 

A assistente admite que confia mais na tia de um colega de trabalho que organiza o grupo do que na sua disciplina de guardar esta quantia mês a mês. “Se não for assim, não faço nunca. É como se fosse uma dívida com alguém então eu faço de tudo para honrar.  Essa senhora é muito correta. Se eu deixar esse dinheiro comigo, por mais que eu diga que não vou mexer, no final das contas, eu mexo”, afirma.

No ponto

Para o superintendente de Banco Digital do PAN, Pedro Poli Romero, a Bahia há um número importante de pessoas com pouco relacionamento bancário, (82%). “Existe uma relação natural entre essa parcela da população e o hábito de guardar dinheiro em casa. O povo baiano tem uma insegurança maior na relação com os bancos, motivada por alguns fatores, entre eles as tarifas bancárias e também por não enxergarem as vantagens de rendimentos em poupanças formais ou outras formas de investimento”, explica.

Outro fator que chamou atenção com relação as caixinhas é que o baiano tem  muita dificuldade em pensar em uma reserva a longo prazo porque sua maior preocupação é chegar no final do mês ainda. “A renda menor faz com que as pessoas se importem mais em sanar suas necessidades urgentes e fundamentais, como alimentação e despesas com casa, do que se planejar para guardar para o futuro”, analisa Romero.

De fato, assim que o ponto do caixa chega, o gasto do valor é imediato. A professora Tânia Maria de Brito sabe bem como é. Ela organiza caixinhas há oito anos e todo mundo que participa tem um objetivo de gasto daquele montante. Até ela mesma: “Eu estava querendo fazer uma reforma em casa. Fiz um empréstimo, mas os juros eram muito altos e usei o caixa como uma alternativa para quitar este empréstimo logo no primeiro ponto. Foi aí que surgiu o meu primeiro caixa”, lembra. 

No começo, o caixa era montado com pessoas mais próximas e colegas de trabalho porque recebiam o dinheiro na mesma data. Aí não tinha risco de a pessoa cair no mundo sem cumprir com o pagamento. “Só que o caixa foi crescendo. Hoje meu caixa tem 24 pessoas com duração de um ano e dois pontos por mês”. 

Quem prefere um ponto, a contribuição é de R$ 250 para receber R$ 3 mil. Dois pontos, R$ 500 onde ela pega R$ 5,5 mil. Tânia vai fechar um caixa agora em abril e tem gente que mal o caixa terminou de rodar, quer garantir mais um ponto em maio. “A procura está grande. Não tenho um ganho de juros, mas o primeiro ponto é sempre o meu. esse dinheiro tem destino certo já: eu vou bater uma laje na minha casa da ilha”, adianta. 

Na base da confiança

O caixa não vai te dar nada a mais nem a menos do que foi pago. Nem ser corrigido pela taxa básica de juros (Selic) ou indexado pelo CDI (Certificados de Depósitos Interbancários) como outros investimentos. Também não há direito do consumidor que garanta o recebimento do ponto. Mas estimula a disciplina de poupar e não cobra juros nem taxas administrativas. 

Segundo a educadora financeira comportamental e criadora do canal Doutora Finanças, Meire Cardeal, a maior vantagem é, justamente, esse sentimento de compromisso. “A pessoa se compromete todos os meses com outras pessoas que não pode falhar. Por isso, é preciso observar a reputação financeira de quem organiza o grupo e também de quem faz parte do caixa para não acabar perdendo dinheiro”, aconselha. 

CINCO APLICAÇÕES PARA FAZER O DINHEIRO CAIXA RENDER  EM 1 ANO (R$ 1 MIL)*

Aplicação

Remune-ração

Valor final

Rendimen-to total

Imposto de Renda

Saldo Final

Percen-tual de ganho

Poupança

0,2500%

R$ 1.030,42

R$ 30,42

R$ 1.030,42

3,04%

Tesouro Direto Pré-Fixado 2023

0,4208%

R$ 1.051,69

R$ 51,69

R$ 9,04

R$ 1.042,64

4,26%

Tesouro Direto Pós Fixado (IPCA +)

0,5175%

R$ 1.063,90

R$ 63,90

R$ 11,18

R$ 1.052,72

5,27%

Fundo de Multimercado

0,6767%

R$ 1.084,29

R$ 84,29

R$ 14,75

R$ 1.069,54

6,95%

Letra de Crédito

0,3767%

R$ 1.046,15

R$ 46,15

R$ 1.046,15

4,61%

DE OLHO NA CAIXINHA

Cabe na conta?  Antes de entrar em um caixa, vale rever seu orçamento. Tenho mesmo como honrar essta parcela todo mês? Lembre-se que um atraso ou débito compromete o ponto de todo mundo e queima sua reputação no grupo. 

Confiança  Avalie  a reputação de quem gerencia o grupo e também dos integrantes. O gestor tem que ser bem organizado e selecionar bem quem entra.  Antes de fazer parte de um caixa converse com alguém conhecido que costuma participar.  

Fique atento  Evite entrar em grupos que cobram taxas de juros ou multas.  

*Simulação elaborada pelo colunista do CORREIO e educador financeiro, Edísio Freire

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