Lojas chegaram a funcionar na manhã dessa segunda (6) em Conquista

Na contramão das orientações do governo do estado e de muitas prefeituras, como a de Salvador, que vêm suspendendo viagens intermunicipais e fechando escolas e outros estabelecimentos, algumas cidades do interior baiano decidiram reabrir seus comércios nesta semana.

Entre as cidades que decidiram pela reabertura de lojas estão Eunápolis, Barreiras, Valente e Vitória da Conquista, que acabou revogando o decreto de reabertura.

Na terceira maior cidade do estado, que tem seis casos confirmados da doença, o comércio amanheceu aberto, mas após reunião à tarde, o prefeito Herzem Gusmão (MDB) voltou atrás e suspendeu a reabertura. Uma nova reunião está marcada para o fim de semana, para reavaliar a decisão.

De acordo com a Prefeitura, o comércio de produtos não essenciais vai permanecer fechado, com o objetivo de evitar grandes aglomerações e diminuir a circulação de pessoas.

Entre os moradores, o receio é quase unânime. “A maioria das pessoas está com medo, não quer sair de casa, ou evita ao máximo. Mas tem uns mais irresponsáveis, que querem que abra até bar e restaurante”, comenta o autônomo Paulo Teixeira, morador de Conquista.

“Eu não queria trabalhar, acho arriscado, moro com meus pais que são idosos, e isso acaba sendo um risco pra eles também. Mas se a loja abriu, não tenho como não ir, senão perco o trabalho”, disse outra moradora, vendedora em uma loja de roupas, que preferiu não se identificar. 

Em Alagoinhas, o decreto de reabertura foi revogado antes mesmo de as lojas reabrirem de fato. “A decisão foi tomada com o objetivo de intensificar as ações de enfrentamento e contingenciamento à covid-19 na cidade e também atende a posicionamentos contrários do Ministério Público, Comitê de Saúde da Câmara Municipal e da Secretaria de Saúde do Estado (Sesab)”, informou a nota da Prefeitura. Na cidade, o comércio seguirá fechado pelo menos até o dia 15 deste mês.

Em Feira de Santana, fechamento foi prorrogado até o dia 14 de abril (Foto: Paulo José/ Divulgação Acorda Cidade)

Quem também abriu as portas do comércio foi a cidade de Eunápolis. Segundo o secretário de Saúde do município, Jairo Júnior, a decisão foi tomada na última sexta-feira (3), depois de reunião entre equipes da Prefeitura, sindicatos e entidades do comércio.

“Fomos a primeira cidade da região a tomar a atitude de fechamento total das lojas e já estávamos assim, há 15 dias. Depois da reunião que tivemos, tomamos a decisão dessa reabertura parcial’, explica Jairo. A reabertura é tida como parcial porque as lojas foram obrigadas a funcionar respeitando o limite de 50% da sua capacidade de lotação e seguindo normas de higiene. Além disso, bares e restaurantes permanecem fechados mesmo nesta semana e as aulas seguem suspensas.

Segundo a prefeitura de Eunápolis, a punição para quem descumprir as determinações vai de três salários mínimos até a cassação do alvará de funcionamento do estabelecimento. “São medidas duras. Estamos com fiscais atuando na cidade e se, a qualquer momento acharmos necessário, voltaremos ao isolamento”, diz o secretário. Eunápolis não registrou nenhum caso da covid-19.

Em Barreiras, outra cidade que decidiu voltar à ativa, a decisão foi baseada no fato de que não houve mudança no quadro de propagação do vírus na cidade durante os 20 dias em que o comércio ficou fechado. O município tem apenas um caso confirmado da doença.

Monitoramento
“A prefeitura de Barreiras instituiu o Plano Municipal de Retomada das Atividades Econômicas, bem como estabeleceu novas medidas de prevenção e controle para o enfrentamento da doença. A prefeitura seguirá monitorando diariamente o quadro epidemiológico e poderá rever as medidas se necessário. Sempre priorizando as ações que garantam a preservação da vida”, disse, em nota, a Prefeitura.

Já o município de Valente publicou no sábado (4), no Diário Oficial do Município, um decreto que também libera o funcionamento do comércio, neste caso, entre os dias 6 e 11 de abril, das 8h às 17h. A medida não é válida para bares, quiosques e academias. O CORREIO entrou em contato com o prefeito do município, mas não obteve resposta.

O mesmo decreto exige ainda que o comércio varejista oferte em seus espaços de atendimento álcool em gel, redução de funcionários para atendimento equipados com EPIs de proteção (luvas e máscaras) e atendimento escalonado dos clientes com distância mínima de um metro. 

Apesar da reabertura do comércio em Valente, a maior parte das lojas permaneceu fechada nessa segunda-feira (6), como relatou a enfermeira Roberta Duarte, 39 anos, que mora no município. “A maioria das lojas estava fechada. A cidade está pouco movimentada, mas as pessoas que estão saindo não usam proteção”, contou.

Em dias de feira, como na última sexta (2), o fluxo de pessoas é maior na cidade. Já na zona rural de Valente, é como se não houvesse coronavírus e até os bares estão cheios. “As pessoas não têm medo porque não tem caso confirmado na cidade”, disse a enfermeira. Ainda de acordo com ela, a população apoia a decisão de abrir o comércio com base no argumento de que é necessário manter a fonte de renda das pessoas.

Já em Feira de Santana, o prefeito Colbert Martins (MDB) decidiu, no domingo (5), prorrogar as medidas restritivas para manter o isolamento social e evitar o avanço do novo coronavírus. Segundo a Secretaria da Saúde do Estado (Sesab), o município tem 26 casos confirmados da covid-19. Segundo o decreto, o fechamento do comércio de rua, bares e restaurantes será mantido até o dia 14 de abril. Já a suspensão das aulas da redes pública e privada, dos shoppings e galerias será até o dia 20 deste mês.

Especialista critica
A abertura do comércio pode criar um aglomerado de pessoas nas lojas, o que facilita uma possível transmissão do novo coronavírus. “Com o comércio aberto, vai ter aglomerado de pessoas circulando. Dessas, quantas podem ter o vírus e passar para outras pessoas? Não tem como responder a essa pergunta”, disse a infectologista Áurea Paste.

A médica ressalta que a recomendação é manter as lojas fechadas para que seja praticado o isolamento social, assim, é possível reduzir a transmissão da enfermidade.

“As cidades com casos confirmados da doença têm um risco maior com o comércio aberto. Os locais sem infectados também devem fechar as lojas, pois as pessoas podem circular entre as cidades e levar o vírus. Abrindo o comércio, as viagens vão estar mais liberadas e quem está infectado pode viajar e disseminar o vírus”, explicou.

“Nesse momento, é preciso levar a sério o isolamento social. A cidade que não tem casos deveria ter mais atenção às recomendações para impedir a entrada do vírus na cidade”, afirmou Paste. Caso a pessoa precise sair de casa, é necessário se proteger e prestar atenção para não acabar se contaminando. A infectologista ressalta ainda a necessidade de usar uma máscara de tecido, evitar tocar em superfícies suspeitas e no rosto, fazer a higiene recorrente das mãos e manter a distância de, pelo menos, um metro e meio das outras pessoas.

Questionada, a União dos Municípios da Bahia (UPB) informou, em nota, que orienta as prefeituras quanto à criação de comitês locais de enfrentamento.  “A entidade esclarece que defende o isolamento social e uma maior vigilância das autoridades municipais, mas entende que os municípios possuem autonomia sobre a questão. Nos casos de reabertura, a UPB orienta aos gestores que sejam adotadas as medidas sanitárias de distanciamento seguro e higienização”, completa o texto.

O presidente da Fecomércio-BA, Carlos de Souza Andrade, afirmou que cada município é autônomo e disse que a entidade apoia a decisão dos prefeitos.

* Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

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