Os pacientes que estavam acostumados a ver a enfermeira Luana Sousa* os receber na porta do consultório usando apenas um jaleco sobre a roupa tiveram que se acostumar com outro visual. Desde que a pandemia do coronavírus se tornou realidade, o ‘kit sobrevivência’ inclui todo tipo de Equipamento de Proteção Individual (EPI), ainda que o paciente a ser atendido não apresente sintomas da covid-19: “Mesmo que seja um pré-natal, eu uso máscara cirúrgica, gorro, jaleco, um avental por cima, luvas e óculos. Se o paciente for sintomático, em vez da máscara cirúrgica, uso a N95”, enumera.

O medo é da contaminação por pacientes assintomáticos. Se, até agora, os cuidados deram conta de proteger a enfermeira do contágio com o novo vírus, o mesmo não pode ser dito sobre outros 34 colegas. Dados confirmados pela Secretaria de Saúde da Bahia (Sesab) apontam que este é o número de profissionais de saúde infectados pelo coronavírus no estado, até o último domingo (7).

Um levantamento feito pelo Comitê de enfermagem para o enfrentamento da covid-19 na Bahia aponta que, desde a última sexta-feira (3), nove casos foram confirmados o estado só em profissionais da enfermagem – enfermeiras e técnicas – e ainda há 57 casos suspeitos em análise. Dos nove casos confirmados, cinco acreditam ter contraído a covid-19 no trabalho.

Uma delas é a enfermeira Mariana Silva*, que trabalha em um hospital de Salvador e está em isolamento domiciliar. Agora, segundo ela, as coisas caminham para ficar bem, mas o momento do diagnóstico foi assustador.

“Passou um filme na minha cabeça… Em nenhum momento a preocupação foi comigo. Só fiquei pensando por onde andei, até ter os sintomas, com quem estive, se tinha idoso perto. Meu maior medo foi, mesmo sem saber e sem a intenção, ter contaminado alguém do grupo de risco. Só depois parei pra pensar em mim!”, conta Mariana.

Apesar do medo, ela ficou triste por estar isolada e não poder contribuir no hospital em que trabalha.

Mudanças
A rotina de milhares de profissionais de saúde e todo o Brasil mudou. Na Bahia, onde 16 mortes pelo coronavírus já foram confirmadas, não seria diferente. O que muda é o medo: para a população em geral, há um temor diante da doença. Mas, os profissionais de saúde estão na linha de frente, muitos deles em contato direto com pacientes que tiveram o diagnóstico confirmado e com colegas que também estão tratando dos doentes.

Para a médica Paula Sampaio*, que costumava trabalhar com saúde da família, a rotina mudou completamente. Primeiro, as consultas agendadas desmarcadas – agora, a unidade de saúde onde ela trabalha, na periferia de Salvador, virou uma emergência que atende, além de casos suspeitos de covid-19, as arboviroses – dengue, zika e chikungunya, além de outras urgências. Os pacientes também tiveram que se acostumar com outra rotina. Para troca de receita, por exemplo, a recomendação é aguardar do lado de fora do consultório.

“Toda a equipe usa máscara cirúrgica. Cada paciente que chega é questionado sobre sintomas respiratórios e presença de febre. No caso de resposta positiva e enquadramento em caso suspeito, ele aguarda numa área do posto separada para isolamento, utilizando máscara, e nós atendemos utilizando máscara, gorro, luvas e capa, além de cuidados com higiene das mãos, equipamentos e do próprio ambiente”, explica.

Uso de máscara é para todos, sobretudo em unidades de saúde
(Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Medo
Para a presidente do Sindicato dos Enfermeiros do Estado da Bahia (Seeb), Lucia Duque, o distanciamento da família é o grande problema que acomete os profissionais. “A questão da contaminação do profissional de saúde, principalmente de enfermagem, que fica na linha de frente, vai ser quase inevitável. A gente precisa proteger esse profissional com material de boa qualidade, as empresas precisam proporcionar treinamento, capacitação, precisa que haja um plano de contingência para não misturar todo mundo”, aponta.

Quando fala sobre contingência, Lucia aponta para o risco de contaminação não só entre profissional e paciente, mas de um profissional para o outro. Segundo ela, o Seeb vem recebendo denúncias de que os colegas que trabalham com outros que foram afastados por suspeita ou por confirmação da doença não vêm sendo isolados também.
Por isso, o conselheiro Otávio Marambaia, que faz parte do Comitê de Crise do Conselho Regional de Medicina da Bahia (Cremeb) cobra mais agilidade na testagem de profissionais de saúde para o coronavírus.

“Nesse momento em que a transmissão comunitária está espalhada, todas as pessoas podem ser potenciais contaminantes. Por isso que nós desejamos que, mais rápido do que está sendo feito, os profissionais de saúde sejam testados. Pode ser que ele tenha se contaminado com o paciente, desenvolveu um sintoma e ele próprio se tornou um contaminante. Se você descobre, você retira aquela pessoa da equipe, porque ela não está trazendo benefício”, defende.

No início da semana, a prefeitura de Salvador começou a testagem rápida para covid-19 e, segundo o secretário de Saúde, Léo Prates, anunciou que os testes também seriam feitos em profissionais de saúde das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e Pronto Atendimentos (PAs).

Testes rápidos começaram a ser feitos nesta terça-feira (7)
(Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Treinamento
Uma preocupação comum a profissionais de saúde de diversas áreas está relacionada aos EPIs – tanto o acesso quando no manuseio. Para a presidente do Sindicato dos Servidores em Saúde do Estado da Bahia (Sindsaúde), Ivanilda Brito, a falta é a principal queixa, mas há também receio. “Tem pessoas que não se acham treinadas para trabalhar com pacientes com contaminação como a covid-19. Tem muitos profissionais que são novos na área, ainda mais em empresas privadas”, diz.

Ela conta que, numa reunião com o conselho estadual de Saúde, a Sesab reconheceu a dificuldade em adquirir EPIs, sobretudo diante das limitações de orçamento. Uma licitação foi aberta justamente para estas aquisições. O CORREIO procurou a Sesab e a Secretaria Municipal de Saúde de Salvador (SMS) para falar sobre o abastecimento de EPIs, mas ainda não obteve resposta.

Para o conselheiro do Cremeb, Otávio Marambaia, é fundamental que haja um treinamento para que os profissionais saibam como usar e retirar dos EPIs, sob o risco de que sejam contaminados no momento da desaparamentação.

“Em muitas unidades, principalmente as unidades básicas, profissionais que não têm traquejo como os profissionais de centro cirúrgico, deveriam passar por um treinamento para fazer uso adequado desses equipamentos. Se ele não souber fazer uso adequado, eles podem se contaminar ao colocar ou retirar o EPI. É tudo muito recente. Eu sou médico há muitos anos e eu nunca me deparei com o que está acontecendo. Eu tive que me reciclar para me proteger de maneira conveniente, para saber de fato de que maneira eu estou me protegendo. É como trocar o pneu com o carro em movimento”, disse.

*Os nomes foram trocados para preservar a identidade dos profissionais

Como e quando usar

A equipe do Hospital Couto Maia produziu um vídeo em que ensina como usar os EPIs. No hospital, unidade de referência para doenças infectocontagiosas, o EPI precisa ser colocado fora do quarto do paciente, para evitar contaminação. Confira as dicas das médicas Ceuci Nunes e Verônca Rocha:

Máscara círurgica – Deve ser usada para proteger da transmissão por gotículas. Pode ser usada para atender pacientes que estão em pronto-atendimento. Pode ser usada na rua. Deve ser trocada a cada duas horas.

Máscara N95 ou PFF2 – Deve ser usada se o paciente gera partpiculas em aerossol e exclusivamente no ambiente hospitalar. É preciso ficar atento se a máscara se adequa ao rosto. Do contrário, partículas podem entrar e causar contaminação. Pode ser usada por até sete dias e deve ser armazenada em sacos de papel para absorver umidade. É preciso evitar usar maquiagem.

Protetor facial – Pode ser usado para proteger a máscara N95. Nao é recomendado usar uma máscara cirúrgica sobre a máscara N95. No caso do protetor facial, deve-se lembrar de trocar o elástico. Pode ser higienizado com água e sabão e, depois, álcool 70.

Óculos de proteção – Devem ser usados para procedimentos com pacientes comm suspeita de covid-19. Não é necessário usar o óculos se estiver usando o protetor facial. Pode ser higienizado com água e sabão e, depois, álcool 70.

Luvas – Para procedimentos mais demorados ou procedimentos como banho, deve-se usar luvas de cano longo. Não deve ser usada na rua, nas comunidades, para não dificultar a higienização das mãos.

Capa – Deve ser grande o suficiente para proteger a maior parte do corpo do profissional

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