Comidas típicas, bebidas quentes, roupas charmosas e muito forró. Esses são só alguns dos elementos que, tradicionalmente, entram na vida do nordestino no mês de junho, nos festejos de São João. No entanto, este ano, a festa está com a sua realização ameaçada devido à disseminação do novo coronavírus.   

“No meu trabalho, há pelo menos 30 famílias que dependem do São João. Agora imagine as milhares de famílias nordestinas que precisam dessa festa. Não são só os músicos e bandas. Tem a agricultura, as bebidas típicas, as roupas, viagens, fogos. A gente está falando de pessoas que dependem da festa para sobreviver. Se cancelar o São João, vai matar muita gente”, disse o cantor Del Feliz. 

Na Bahia, 12 cidades já cancelaram a festa: Amargosa, Ibicuí, Senhor do Bonfim, Irecê, Miguel Calmon, Seabra, Itaberaba, Piritiba, Cruz das Almas, Santo Antônio de Jesus, Conceição do Almeida e Vitória da Conquista. Já em Campina Grande, na Paraíba, a festa foi adiada para outubro. 

O CORREIO conversou com pelo menos seis empresários e forrozeiros sobre o assunto. Todos são unânimes em defender o adiamento dos festejos juninos, mas são contra o cancelamento.  

“A palavra de ordem deve ser adiamento. Cancelar não pode ser a primeira opção. Se faria em junho, por que não pode ser em agosto ou setembro? Os recursos que seriam usados agora, serão usados depois. Tantas prefeituras já têm o hábito de fazer São João e São Pedro fora de época”, defendeu Adelmário Coelho.  

“O que a gente ganha no São João é normalmente o que nos sustenta nos outros meses, quando a procura por shows de forró é menor”, completou o artista.

Desde que a tradição dos festejos juninos começou, não há relatos de que tenha havido um ano sequer que a festa não tenha sido realizada no mês tradicional. “A gente espera os 11 meses para que chegue junho, que é quando a gente tem uma amplitude de shows. Mas se tratando de saúde, a gente só chama por Deus e pede para que todos fiquem bem”, disse Jó Miranda, que já fez até 29 shows no período junino, enquanto nos outros meses encara cerca de 10 apresentações.  

Se para os cantores famosos os impactos econômicos serão sentidos, para as bandas menores, aquelas que dependem quase que exclusivamente do São João, a situação é mais difícil ainda.  

“Nós fazemos 4 a 5 shows, no máximo, durante os meses normais. No São João, viajamos o interior, tocamos sempre em algumas cidades, como Ouriçangas e Irará. Fazemos cerca de 20 shows”, disse Antônio Jorge, conhecido como Super Tom. Ele é vocalista da Zé de Tonha, uma banda de forró que começou nos barzinhos de Salvador há 18 anos e, desde o ano passado, começou a fazer exclusivamente shows maiores. 

Esse não é o caso da Cavaleiros do Forró, uma banda potiguar de expressão nacional que faz uma média de 35 shows no período junino. Diferente de outros forrozeiros, o grupo possui uma média alta de shows nos outros meses, cerca de 20. Mesmo assim, a ausência do São João representa a perca de  35% do faturamento anual dos artistas.  

“É uma doença nova, não podemos diminuir os cuidados, mas acho precipitado qualquer cancelamento de São João. Já tivemos que cancelar 48 shows entre março e início de maio. Mas, o povo precisará ter direito ao lazer, é um direito constitucional. Sou um eterno otimista e acredito que o Nordeste dará exemplo na taxa mínima de mortalidade, e que conseguiremos fazer a maior festa do mundo, que é a festa junina. Confiamos em Deus e nos cientistas”, disse Alex Padang, empresário da banda.  

Outro grupo que também será afetado é o tradicional Trio Nordestino, que surgiu em Salvador em 1958 e hoje é comandado pelos herdeiros musicais dos fundadores. Os três músicos principais da banda, Luiz Mario, Beto Sousa e Jonas Santana, hoje vivem no Rio de Janeiro, mas no período junino, devido à quantidade de shows, se mudam para o Nordeste.    

“A gente ia lançar um CD em maio, os meninos já iam chegar no final de abril. Tínhamos uma agenda bacana, cerca de 60% dos nossos shows eram na Bahia, mas essa pandemia chegou com força. Cerca de R$ 800 mil reais vão deixar de entrar com o cancelamento do São João. Um dinheiro que ia ser destinado para as nossas despesas e pagamento de 19 funcionários”, disse Coroneto, neto de um dos fundadores do grupo e empresário da banda.  

Procurado, o governador Rui Costa informou que ainda não há uma decisão sobre o assunto. “É muito pouco provável ter condições de realizar qualquer festividade em junho. Prefiro não anunciar a decisão definitiva agora. Vamos aguardar como se comportará essa situação na Bahia e no Brasil. Vamos aguardar o final do mês para definir”, disse. 

Confira uma média de quantos shows cada banda entrevistada costuma fazer no São João e quanto dinheiro deixará de ser arrecadado pelos grupos:  

Cavaleiros do Forró 
Shows no São João: 35 
Shows em outros meses: 20 
Quanto deixa de ser arrecadado se o evento for cancelado: 35% do faturamento anual. 

Del Feliz 
Shows no São João: 30  
Shows nos outros meses: 5 
Quanto deixa de ser arrecadado se o evento for cancelado: R$ 1,5 milhão 

Trio Nordestino 
Shows no São João: 25 
Shows nos outros meses: 7 
Quanto deixa de ser arrecadado se o evento for cancelado: R$ 800 mil 

Zé de Tonha 
Shows no São João: 20 
Shows nos outros meses: 5 
Quanto deixa de ser arrecadado se o evento for cancelado: R$ 300 mil 

Jó Miranda 
Shows no São João: 29  
Shows nos outros meses: 10 
Quanto deixa de ser arrecadado se o evento for cancelado: Não divulgou  

Adelmário Coelho 
Shows no São João: 30 
Shows nos outros meses: 5 
Quanto deixa de ser arrecadado se o evento for cancelado: Não divulgou. 

*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui