Impossível não refletir e falar sobre o que estamos vivendo nesse momento em relação ao coronavírus. Estive pensando no quanto esse vírus pode ser uma carona para um reencontro em diferentes instâncias: conosco, com os outros e com o ambiente. Não estou dizendo, de modo algum, que há algo positivo em uma pandemia mundial, mas sim que nossas atitudes nesse momento tão doloroso e complexo podem, também, ser positivas. Tenho observado muitas pessoas reclamando do confinamento em casa, sugerindo atividades para realizar nesse período, vivendo desespero, se responsabilizando por contribuir ou apresentando total indiferença ao contexto atual.

Penso que podemos enfrentar essa situação buscando nos reencontrar de várias maneiras. Conosco, nos perguntando qual nossa relação com: a) o espaço mais restrito, b) o tempo não delimitado pela necessidade de produzir, c) o prazer, d) a descoberta de novas experiências, e) a solidão ou a solitude, f) a busca de propósito na existência, g) a busca de sentido.

Outra dimensão de reencontro é com as pessoas, pois nesse momento podemos estreitar laços e fortalecer vínculos com nossos familiares, amigos, colegas de trabalho e pessoas desconhecidas. Estamos todos ameaçados, com medo de perdermos pessoas amadas, além de vivermos limitações diversas no cotidiano. Portanto, se estamos no mesmo barco, por que não assumirmos nossa co-responsabilidade pela saúde coletiva? Por que não exercitarmos solidariedade, compaixão, empatia, respeito, união e partilha? A vida está nos convocando individualmente e coletivamente a usarmos nossas competências, habilidades e recursos humanos em prol de continuarmos existindo. Soa catastrofismo?

Vale resgatar a história e lembrar dos milhões de mortos pela peste bubônica no século 14. A medicina de hoje avançou, sim, isso é inquestionável, mas se os profissionais da saúde e cientistas estão alertando para a necessidade de ações imediatas para conter a pandemia, isso significa que são exatamente esses avanços que possibilitam a convocação de todos à intensificação de cuidados e à prevenção. 

Ademais, vale lembrar que o momento não demanda apenas comer melhor, beber mais água, malhar mais para fortalecer o sistema imunológico, mas sim entender que há milhões de pessoas que não têm como melhorar a resposta imunológica devido às limitações da idade avançada, doenças concomitantes, falta de moradia, de saneamento básico e de alimento. E não adianta dizer que a população brasileira não passa fome por estar acima do peso. O alimento mais acessível e barato pode até matar a fome e engordar, mas não necessariamente nutre, portanto, não fortalece o sistema imunológico. Isso sem falar das condições gerais de vida precárias para a maioria da população brasileira. A terceira dimensão de reencontro é com o meio ambiente, já que pesquisadores apontam a ação humana no ambiente como a responsável pela pandemia do covid-19.

Há tempos os especialistas alertam sobre a necessidade de nos preocuparmos com o hiper consumo, a destruição contínua do planeta e as mudanças climáticas. Ah, mas há quem argumente que o capitalismo não pode entrar em colapso. Seria importante todos se perguntarem: e nós, enquanto espécie e meio ambiente, podemos entrar em colapso? Vale resgatar a fala do brilhante geógrafo brasileiro, nordestino, baiano, negro, único latino americano a ganhar em 1994 o prêmio Vautrin Lud, o Nobel da Geografia: “A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos, quando apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une”. Que possamos nos unir!

Rosita Barral é psicóloga e professora do Instituto de Psicologia da Ufba

Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade dos autores

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui