O relógio marca 9h30 e logo ecoa o sino em toda Colina Sagrada. Mas, no lugar de uma multidão de devotos, apenas um solitário sentado na escadaria. Cabisbaixo, ele lamentava. “Estou sem acreditar neste cenário. Um completo vazio. Era pra aqui estar lotado de turistas”, disse o pintor Israel Carvalho de Oliveira, 38 anos, em um dos degraus da imponente Basílica do Bonfim.

 

Em plena Sexta-feira da Paixão, Basílica do Bonfim completamente vazia
(Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Na manhã desta Sexta-feira Santa (9), a Igreja do Bonfim, um dos cartões postais mais populares da Bahia no mundo, tão procurada nessa época por fiéis e turistas, amanheceu praticamente deserta – fruto do isolamento social para evitar a disseminação do coronavírus.

“Tudo isso por conta dessa pandemia. Se não fosse, hoje as pessoas estariam no entorno de um palco montado em frente à igreja, um monte de fiéis, baianos e turistas”, disse ele.

O pintor faz referência à celebração campal da Sexta-feira da Paixão –  conforme a tradição católica, não são celebradas missas, já que a liturgia da data é centrada no sofrimento e morte de Jesus Cristo. 

Israel sozinho da escadaria do Bonfim foi pedir por dias melhores (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Devoto do Senhor do Bonfim, Israel acredita que logo tudo vai passar. “Sigo crendo que o Senhor do Bonfim vai olhar por todos nós, que logo logo tudo será como antes. Por isso, vim aqui pedir a ele por dias melhores”, disse, ao CORREIO. 

E, por um tempo melhor, clamam também os ambulantes que vivem do turismo na Colina Sagrada. “A situação está tão difícil que ninguém vendeu. Tá todo mundo aqui, veio na esperança de garantir o peixe desta Sexta-feira Santa, mas pelo jeito hoje vai ser panela vazia”, lamentou o vendedor de fitinhas Melquisedeque dos Santos, 40.

Pelourinho
Na imensidão do chão de paralelepípedos, um homem subia o Largo do Pelourinho – só ele e mais ninguém. Nada de turistas sendo abordados por ambulantes, nada de comerciantes. Era apenas ele e alguns pombos, que se alimentariam das sobras deixadas por visitantes. “Todos aqui dependem do que é deixado pelo turismo. Se não tem turistas, não tem o que comer”, justificou ele, seguindo seu trajeto em passos largos.

Homem sobe sozinho o Largo do Pelourinho
(Fotos: Arrison Marinho/CORREIO)

Do Terreiro de Jesus, via-se que o Pelorinho não era mais aquele, já não tinha mais a cara do maior cartão postal da Bahia.

“Hoje, aqui seria um Carnaval. Haveria muita gente circulando, pois hoje seria a última temporada dos transatlânticos. Se não fosse o coronavírus, isso aqui estaria uma Torre de Babel, um monte de estrangeiros de vários países”, comentou a gari Elane Oliveira de Jesus, 39.

“Em compensação, tá tudo mais limpo, menos trabalho para nós, não posso negar. Porém, prefiro ter muito o que limpar a esse risco de ficar doente e ver muitas pessoas queridas sem ter o que comer por não ter como trabalhar”, completou ela. 

Farol da Barra
Se a Colina Sagrada e o Pelourinho estão praticamente vazios, o Farol da Barra já não é tão solitário assim. O CORREIO encontrou pessoas andando,  correndo, pedalando e até passeando com a família inteira, como foi o caso do casal Edmundo e Consuelo Fontoura, ambos de 57 anos.

Em frente ao Farol, eles circulavam com quatro cães – três na raça golden e um shih-tzu. “Estávamos em casa, mas resolvemos dar uma volta um pouco com eles, que fazem parte da família. A gente só sai quando necessário, como agora”, disse Edmundo, que trabalha numa empresa de engenharia. 

Casal saiu da querentena para levar os cães para passear (Fotos: Arrisson Marinho)

Já o auxiliar de logística Francisco Peixoto, 35, vem correndo todos os dias de Ondina até o Farol da Barra. Ele garante que toma cuidados. “Não dá pra ficar em casa. Não aguento. Por isso que corro diariamente, mas faço sozinho e tomo cuidado para não cruzar com as pessoas. Desta forma, acredito que o risco de contaminação é bem menor”, declarou. 
 

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