Até hoje, a família do aposentado Marinalvo Miranda, 82 anos, não sabe como ele foi infectado pelo coronavírus. O diagnóstico de Alzheimer, há oito anos, levou-o a uma situação em que vive acamado. Com problemas de circulação, Marinalvo estava em mais de um grupo de risco. Tinha muitas possibilidades contra ele. 

Mas, no último dia 3, a notícia de sua recuperação correu a Bahia. Depois de 17 dias internado no Hospital Aliança devido à Covid-19, Marinalvo teve alta. Se tornou uma das 146 pessoas consideradas curadas da doença pela Secretaria da Saúde do Estado (Sesab) até sexta-feira (10). “O paciente respondeu bem a todas as medidas implementadas pela nossa valorosa equipe”, disse o superintendente médico da instituição, Raymundo Paraná, na ocasião. 

Para os médicos, a recuperação de Sr. Marinalvo foi uma surpresa. Para a família, a cura foi uma felicidade. Para muita gente que leu ou escutou sobre sem nunca tê-lo visto, foi quase um abraço. Algo com poder de aquecer o coração e dar esperança. 

“Meu pai conseguiu vencer o coronavírus”, afirmou a filha do aposentado, a psicóloga Mônica Miranda, 51. 

Confira o relato dela ao CORREIO

“Meu pai começou com febre alta no dia 18 de março. Estava com dores abdominais e teve um pico de pressão. Eu estava na casa dele e eu acompanhei a evolução da temperatura. Quando eu vi que tinha saído de 36,5°C para 39,8°C, decidi levá-lo ao hospital. 

Ele teve socorro muito rápido. Nós ajeitamos ele e fui direto para o Hospital Aliança. O médico fez anamnese, conversou comigo e, dentro dos exames, fez também o do coronavírus. Ele ficou hospitalizado por ser idoso e para pesquisar o que ele tinha. Fez o teste para o coronavírus na própria quarta-feira (dia 18) e a gente recebeu o resultado no domingo (22 de março). 

Meu pai tem Alzheimer bem comprometido. Ele tem 82 anos e tem comorbidades. Não reconhece mais as pessoas, o discurso dele não é mais coerente. Ele tem problemas de circulação porque é acamado. Ele tem problemas porque o Alzheimer vai debilitando. Diria que foi uma surpresa muito grande meu pai conseguir superar o coronavírus, porque ele está em muitos grupos de risco. 

Quando meu pai entrou, notei que doutor Adriano (Oliveira, infectologista do Aliança) falou ‘calma, vamos ver’. Ele não falou mais nada. Com o passar do tempo, ele foi me alimentando, dizendo que meu pai estava surpreendendo toda a equipe. Esse retorno foi me tranquilizando, me deixando tranquila. 

Ele não precisou ser entubado, não teve dificuldades respiratórias graves. Teve muita febre e dor abdominal. Mas ele não evoluiu, o quadro ficou bom. Ele pode até morrer daqui a um mês (por outra razão), ninguém tem esse controle. Mas ele conseguiu vencer o coronavírus. Isso é sinal que as pessoas também podem porque com tantas comorbidades, ele tinha todos os motivos para não responder bem. E respondeu bem. 

Fomos muito bem assistidos pela equipe médica, um tratamento muito humanizado, cuidadoso. Eu recebia ligação da psicóloga do hospital todos os dias. É um processo (o tratamento) difícil porque cada dia é um dia. Eu ficava preocupada com ele, sempre na expectativa de uma notícia, mas preocupada também com a família toda.

Minha mãe é idosa, minha tia também é idosa. Tem as cuidadoras que são jovens mas são pessoas que trabalham junto com a gente. Passei dias difíceis nesse sentido, mas por outro lado não perdi a fé. Orava muito, meditava muito, respirava muito, procurava ter pensamentos positivos também. Isso me ajudou muito a entregar a Deus porque a gente não tem o controle. 

Mas ele sempre foi um homem forte, que fez esportes, se alimentou bem. O início do Alzheimer foi em 2012. De 2015, 2016 pra cá ele já começou a dar mais sinais. Mesmo assim, durante toda a vida, ele se cuidou muito. Ele teve o coração valente e passou por isso. 

Os médicos estavam o tempo todo conversando comigo. No final, disseram que iam repetir o PCR (teste que identifica o coronavírus) na quarta. Se desse normal, como meu pai já estava bem e não tinha febre há dias, já poderiam liberar. Fiquei na expectativa e, na sexta de manhã, na hora que receberam, já me avisaram. Fui buscar meu pai e foi muito emocionante. 

Quando ele chegou, a casa ficou muito feliz. Hoje pai está em casa, minha mãe também. Ele está em isolamento no quarto dele mais por ser acamado, mas a gente tem observado. Nosso receio é de ele ter ficado mais fraco pela idade. Agora precisa se alimentar bem, se recuperar, porque ficou confinado muito tempo. 

Ninguém nem imagina como ele contraiu porque foi bem no inicio, dia 18 de março apareceram os sintomas. E antes do dia 18 não se falava em transmissão comunitária. Mas pode ter sido qualquer um de nós. Pode ter sido eu, minha mãe, qualquer pessoa. E a gente não sabe porque estava todo mundo bem de saúde. No máximo, tivemos sintomas leves que não podemos atribuir à doença. Era uma dor de garganta que passou, uma dor de cabeça que passou. 

Eu estou muito feliz, porque vou ter a oportunidade de passar a Páscoa com meu pai em casa. Ainda que eu esteja em minha casa, saber que eles estão bem é uma esperança muito grande para as outras pessoas. Se meu pai conseguiu vencer, outras pessoas vão conseguir vencer. Eu desejo para as muitas pessoas calma, tranquilidade, que isso chegue  às pessoas como uma esperança e que logo a gente consiga descobrir uma alternativa para vencer esse vírus. Essa pandemia veio para nos ensinar a ter cuidado com a gente”. 
 

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