Eu sou agnóstica e não leio a bíblia, mas mainha – que é católica e estudou em colégio de freiras – deixou muito claro, pra mim: “o que se pede é que, na sexta-feira da paixão, se faça jejum de carne, só isso”. Eu já imaginava e confirmei com ela que no “livro sagrado” não há sugestão de cardápio para esse dia, nem qualquer menção a vatapá, efó, caruru nem acarajé. A pessoa também não é obrigada a comer bacalhau, por religiosidade. Se foi ao mercado, na quinta-feira, disputar peixe e formar aglomeração, foi usando o livre arbítrio, ignorando a coletividade e sendo absolutamente egoísta, apesar de se dizer “cristão”. Se não tinha peixe em casa e queria cumprir o ritual, bastava um ovo frito, um macarrão alho e óleo, uma lasanha só de queijo, qualquer coisa sem carne vermelha serviria. De preferência, em estado de agradecimento por ter comida em casa, num momento tão difícil, para tantos. 

(Alerta para o uso da fé como desculpa. Jogaram nas costas de Jesus a responsabilidade de terem saído pra dar o rolê.)

A saidinha pra comprar o “peixe da semana santa” é a metáfora mais recente do que há de mais podre, nos humanos da atualidade. Futilidade, egoísmo, hipocrisia, fragilidade de caráter já são uma pandemia à parte. Nos telejornais e nas ruas da cidade onde eu vivo (fiquei sabendo, mas não fui olhar) a decisão coletiva de dar um tempo no isolamento porque, né… sem o peixinho não dá pra ficar. Nem sem visitar os parentes e comer de graça, na casa dos mais velhos. Quem tem carro – e faz parte dessa escória – pegou estrada como se não houvesse amanhã. O desembarque foi nas pequenas cidades, de onde devem ir embora no domingo de páscoa, deixando infectados pra trás. Vocês viram as filas do ferryboat e da lanchinha de Mar Grande, na quinta? Não é possível que todos/as que estavam ali precisassem mesmo, atravessar o mar. É egoísmo que chama. Eu acho uma pena o fato de que nem só os escrotos irão pagar.

“Ainnnn, mas é muito difícil o isolamento”. Ok, mas a minha empatia é seletiva, de verdade. Quem se isolou há mais tempo, no Brasil, ainda não tem nem um mês em casa. Só que, claro, há bastante tempo já reclamam – esses/as privilegiados/as – de “solidão” e “tédio”, deitados/as em seus sofás macios, entre lives e posts nos seus poderosos sinais de wifi. Também, claro, de precisarem cozinhar e limpar as suas próprias casas. Isso, quando não mantiveram seus “escravos” e “escravas”, indo e vindo pra trabalhar no transporte público lotado, sob pena de perder o salário. Nesse caso, tão burros/as esses/as senhores/as que pensam estar a salvo. Não estão, sinto informar. Vão adoecer contaminados pelos/as serviçais que obrigam a circular, assim como vai adoecer quem “não aguenta mais”, bate o pezinho e decide sair nas ruas que estão mais vazias porque outros/as estão cumprindo a obrigação de ficar em casa. Não respeito, não acolho quem só olha pro próprio umbigo e mais nada.

Minha empatia está em outro lugar. Tô preocupada é com quem tem que sair de casa pra cuidar dos que já adoeceram. Também com aqueles/as que não vão conseguir comer, se ficarem em  casa. Tô preocupada com quem vive nas ruas, sem alternativa. Tô preocupada com quem sofre violência doméstica, neste momento agravada. No máximo, tô preocupada com quem tem transtornos mentais, sem acompanhamento. Porque, se tiver acompanhamento e remédio, tem como segurar essa situação que é temporária. Tô super preocupada com o desgaste emocional de quem tenta proteger os seus, mas não consegue e dos/as que estão expostos/as a quem “não acredita” na pandemia, e vive junto, na mesma casa.

Um exército de gente inútil que não consegue fazer o mínimo: ficar em casa. Só pedimos que cumpram as regras, sem encher o saco e que deixem em paz, quem precisa trabalhar. Imagine se precisássemos pegar em armas! Bando de covardes. Hoje, eu tinha uma pauta divertida, seria um texto leve, pra desanuviar. Mas não tive como, depois de ver o isolamento sendo flexibilizado, enquanto o vírus avança sobre nós. Aos que não “aguentam mais”, caberá uma parte da responsabilidade, quando começarmos a contar mortos, aos milhares. Hoje, tive que escrever – de um só fôlego – sobre esse monte de gente que reclama de não poder ir à praia, aos bares, às festas. Sobre quem tá #xatiado porque não vai ter almoço de páscoa ou festinha de aniversário. Me poupem! Cresçam! Percebam a gravidade do que é e do que virá. Estamos em uma PANDEMIA, não é hora de priorizar carências emocionais, nem desejos individuais. Se você saiu, volte para a casinha. Em sentido metafórico e literal.

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