O olhar fixo no céu chuvoso não esconde a preocupação. “Numa hora dessas, a gente não sabe o que está por vir”, disse o comerciante Paulo Sérgio Silva, 58 anos. Ele e outros moradores do Santo Antônio Além do Carmo, no Centro Histórico de Salvador, são vizinhos do medo. Eles temem que seus imóveis sejam atingidos pela mesma cratera que provocou a interdição de dois prédios no bairro neste domingo (12).

(Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Ao todo, sete famílias foram notificadas pela Defesa Civil de Salvador (Codesal) e tiveram que sair de suas moradias. A Codesal informou que a chuva, que vem caindo desde a última sexta (10), deve continuar até quarta-feira (15), mantendo a mesma condição, de moderada a forte. 

Os dois prédios interditados são os de números 39 e 49 e ficam Rua dos Adobes. De acordo com os técnicos da Codesal, o surgimento de uma cratera de um metro de largura com cinco a seis de profundidade põe em risco a estabilidade das fundações do imóvel.

“Estamos muito preocupados. O buraco abriu na quarta e rapidamente aumentou de tamanho com a força da água. Ninguém sabe a dimensão real do problema. O nosso medo é a continuidade dessa chuva transforme tudo num efeito cascata. Se o buraco aumentar, pode não só derrubar os prédios interditados, como engolir também os imóveis vizinhos”, declarou Paulo Sérgio ao CORREIO, na manhã desta segunda-feira (13). Ele é dono do imóvel de número 44. 

A estudante de enfermagem Graziela Carvalho, 29, que reside na casa de número 43, também não esconde a aflição. “O medo existe, porque aí para trás é um morro. Salvador, quando chove tanto assim, os estragos não são poucos e a gente teme que possamos ser atingidos também por conta da cratera que surgiu de um nada”, disse ela. 

Erosão e construções
Os prédios interditados estão situados no lado esquerdo da Rua dos Adobes, onde o fundo dá para o Túnel Américo Simas. Nascida e criada no Santo Antônio Além do Carmo, Tânia Pastore, 60, é conselheira comunitária do bairro e, além de concordar com os demais moradores que a cratera é um risco para todos, aponta um outro problema.

“A preocupação de todos não é em vão. Lá atrás, a terra é muito fofa e algo pior pode acontecer se nada for feito para sanar a erosão. Para além disso, existe uma outra situação que nos preocupa. Tem crescido o número de construções irregulares, fazendo escavações desordenadas e isso afeta a estrutura de vários imóveis”, denunciou. 

As interdições aconteceram na tarde deste domingo
(Fotos: Arisson Marinho/CORREIO)

Interdições
As interdições dos dois prédios no bairro do Santo Antônio Além do Carmo aconteceram na tarde deste domingo (12). Equipes da prefeitura compostas pela Codesal, secretarias de Promoção Social e Combate à Pobreza (Sempre) e de Manutenção (Semam) estiveram no local avaliando a situação dos prédios. A recomendação foi pela interdição do prédio e a saída dos moradores por medida de segurança, em função da previsão de continuidade das chuvas nas próximas 24 horas em Salvador, ocasionando o risco iminente de desabamento. 

As sete famílias dos dois prédios, um de quatro pavimentos e o outro de dois, receberam o ato de notificação e deixaram suas residências, conforme as recomendações dos órgãos municipais. Um casal foi encaminhado para um centro de acolhimento oferecido pela Sempre.

“A princípio,, a erosão apareceu por conta de uma rede de esgoto, mas a Sucop (Superintendência de Oras Públicas) vai investigar e nos relatar a causa do problema”, declarou Sóstenes Macedo, diretor da Codesal. 

Questionado sobre o medo dos demais moradores quanto à cratera que causa a interdição dos dois imóveis, Sóstenes respondeu: “Se progredir, a Codesal procederá da mesma forma, notificando e interditando (imóveis). Se mudar, trataremos de um novo cenário”.

Em relação à denúncia de construções irregulares, o CORREIO manteve contato com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Urbanismo (Sedur). Em nota, a pasta respondeu que “não foi constatado nenhum problema estrutural, houve um rompimento em um PV, Poço de Visita” e que, por conta da profundidade da cratera formada e pelo fato de estar próxima a dois prédios, por precaução, evacuou-se os dois imóveis. A Sedur não respondeu sobre a denúncia de construções irregulares.

A chuva que cai desde sexta deve dar uma trégua nesta quarta
(Foto: Arrison Marinho/CORREIO)

Balanço
A Codesal recebeu 113 solicitações de 0h até às 11h desta segunda-feira (13). Foram 30 avaliações de imóveis alagados, 24 deslizamentos de terra, 19 ameaças de desabamento, 14 ameaças de deslizamento, nove alagamentos de imóvel, quatro alagamentos de área, quatro orientações técnicas, três infiltrações, duas árvores ameaçando cair, um ameaça de desabamento de muro, um desabamento parcial, um galho de árvore caído e uma pista interrompida. 

A Codesal, órgão que integra a categoria de serviços fundamentais do município, atende normalmente a população pelo telefone gratuito 199. Em situação de emergência,  a Codesal dispõe do telefone gratuito 199. 
 

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