Rua no bairro Cidade Nova tem 13 casos de chikungunya registrados

Em tempos de pandemia, com todas as atenções voltadas ao combate do novo coronavírus, outras viroses acabam sendo esquecidas, mas não deixam de aparecer nos prontuários médicos. A chikungunya, por exemplo, cresceu 831,4%. Foram 159 casos no do dia 1º de janeiro até 7 de abril de 2019, contra 1.481 notificações no mesmo período desse ano. Para dengue e zika, o aumento foi menor, mas também expressivo: 323% e 372%, respectivamente. Os dados são da Secretaria Municipal de Saúde de Salvador (SMS).

Na Bahia, os casos de chikungunya foram os únicos que registaram aumentos até o último boletim divulgado pela Secretaria de Saúde do Estado (Sesab), que considera casos até o dia 10 de fevereiro. O incremento, comparando ao mesmo período do ano passado, foi de 212%. Apesar das reduções percebidas, neste início de ano, para as outras arboviroses – como são chamadas as doenças transmitidas pelo aedes aegypti – a Sesab emitiu um alerta epidemiológico para as doenças no final de fevereiro. 

O documento destaca que esse período do ano propícia o aparecimento do mosquito transmissor. Os motivos também são levantados pelos especialistas que tratam da doença. “Essa época do ano, de temperaturas mais altas e com a ocorrência de chuvas, acaba sendo uma época em que os casos aumentam”, explica a médica infectologista Melissa Falcão. 

Especificamente sobre a chikungunya, profissionais apontam a ocorrência do chamado ano endêmico, quando a doença volta a crescer depois de um período de tempo sem muitos casos. “O último grande aumento aconteceu entre 2014 e 2015, por isso, depois desses cinco anos sem um número grande de casos, a quantidade de pessoas suscetíveis à doença pode aumentar”, conta a médica. Isso ocorre porque cresce o número de pessoas sem anticorpos para a doença, já que não tiveram contato com o vírus. 

Melissa chama atenção, ainda, para a importância dos cuidados referentes às arboviroses, principalmente em tempos de isolamento social. “Por conta da pandemia, as pessoas acabam esquecendo um pouco dessas doenças. As arboviroses, são, para Bahia, até mais impactantes que o próprio coronavírus. É preciso aproveitar que se está em casa para dar uma olhada e eliminar qualquer tipo de ambiente favorável ao mosquito ”, alerta. 

Ranking negativo

Na capital, onde o crescimento da chikungunya é alarmante, alguns bairros sofrem com uma grande quantidade de doentes. Sussuarana lidera, com 66 casos, seguido por São Marcos, que tem 58. Em Cidade Nova, em apenas uma rua, ao menos 13 pessoas estão infectadas. O bairro está em terceiro lugar no ranking elaborado pela SMS (veja acima), com 46 casos da doença, empatado com Periperi. 

(Ilustração: Arte/CORREIO)

Na Rua das Almas, a assistente fiscal Lucimaria Santos, 44 anos, é uma das que enfrenta as dores da chikungunya. Ela conta que está com os sintomas há 16 dias e que, antes de adoecer, cuidava do pai, também com a doença. “Ainda nem consigo andar direito, as dores são muito fortes, tive que ir ao médico duas vezes para poder tomar um medicamento mais forte”, relata. 

Lucimaria revela os sintomas clássicos da doença: febre, dor de cabeça e dores fortes nas articulações. O mesmo relato do comerciante Lucas Araújo, 37, que também mora na mesma rua. “Conheço oito pessoas aqui na rua que estão doentes”, diz. 

Em Jardim Cajazeiras, bairro que nem chega a aparecer na lista das 15 localidades mais atingidas, são pelo menos sete casos confirmados. “Meu tio e irmão tiveram. Tem bastante gente aqui na rua doente”, conta a professora de educação física Maiara Reis, 23. Por lá, um comunicado preparado pelos próprios vizinhos chegou a circular nas redes sociais pedindo por cuidados.   

Ações 

O aumento no número de casos para a chikungunya já era um alerta dado pelas organizações internacionais de saúde desde 2018. Por isso, segundo o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), órgão da Secretaria Municipal de Saúde, ações de combate ao mosquito já vêm sendo intensificadas com antecedência na cidade.

“Trabalhamos para evitar ao máximo os impactos, com mudanças que vem acontecendo desde o ano passado”, conta Isolina Miguez, subgerente de arboviroses do CCZ. Entre as intensificações está o aumento no número de agentes para realizar o trabalho, que também passou a ser realizado aos finais de semana e feriados, desde o início deste ano 

“Nesse período de quarentena, os agentes não estão entrando nos domicílios, mas fazendo o trabalho no entorno e, ao abordar os moradores, fazem também uma ação educativa”, explica Miguez. 

O trabalho dos agentes envolve rondas periódicas, além dos chamados bloqueios, quando ações de combate – como a aplicação de veneno contra o mosquito e a busca por focos e larvas – acontecem no entorno de regiões onde são identificados casos.

Veja a diferença de sintomas das doenças causadas pelo aedes aegypti:

Dengue: Febre alta e prostração (um cansaço generalizado). A dor é conhecida como quebra-ossos, porque se espalha pelo corpo todo e o paciente não consegue apontar onde está doendo. Vermelhidão no corpo com coceira pode ocorrer, mas a partir do terceiro dia da doença.

Chikungunya: Febre alta. A dor, nesse caso, é súbita, intensa e chega a ser incapacitante, impedindo a pessoa de realizar suas atividades comuns do dia a dia. A dor se concentra nas articulações e pode ocorrer rigidez matinal nas articulações (principalmente mãos). A vermelhidão surge a partir do quarto dia e, diferente das demais, pode causar aftas. 

Zika: Vermelhidão e coceira desde o primeiro dia. A febre, quando aparece, é baixa e a dor é mais leve e moderada. 

Diferenças para a Covid-19: A principal diferença é que, com o coronavírus, as queixas mais comuns são as respiratórias, que geralmente não ocorrem nos quadros de arboviroses (coriza, congestão nasal, dificuldade de respirar). A confusão pode ocorrer nos quadros de Covid-19 onde predominam queixas gastrointestinais, já que todas as doenças podem causar febre e diarréia, mesmo não sendo sintomas mais comuns. 

*Com supervisão do subeditor Miro Palma

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