O cantor Moraes Moreira, que faleceu nesta segunda-feira (13), aos 72 anos, além de ter se eternizado na música popular brasileira com grandes clássicos como ‘Preta Pretinha’, ‘Chame Gente’, ‘Chão da Praça’, entre muitos outros, também se destacou pela sua produção poética através da literatura de cordel.

Em 2015, passou a ocupar a cadeira de número 38 da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, que tinha como patrono o poeta paraibano Manoel Monteiro. Desde então, suas apresentações passaram a ser um misto de música e recital.

Além de ter escrito um livro contando “A História dos Novos Baianos e Outros Versos”, publicou também “Poeta Não Tem Idade” e o álbum “Ser Tão”, no qual equilibra canções e textos. Numa das faixas, inclusive se assume nessa nova fase: “De Cantor Para Cantador”. 

Também poeta e cantador, o professor baiano Elton Magalhães compôs, com exclusividade para o CORREIO, um poema que fala da chegada de Moraes no plano superior (tipo de homenagem bem comum entre os cordelistas). Por lá, é recebido por outros bambas baianos que deixaram saudade e entraram para a eternidade. Confira o texto na íntegra.

Arte: Amanda Lima/Divulgação

A CHEGADA DE MORAES MOREIRA NO CÉU

Em tempos de pandemia
O mundo respira o mal
Mas os grandes da Bahia
Vão de morte natural
Pr’um outro plano fazer
Um bonito Carnaval.

Assim foi com Riachão
Que abriu as portas do céu
Dizendo: saaaaamba, São Pedro
Com seu lencinho e chapéu
Ganhando dos seus amigos
Um merecido troféu.

Com o samba comendo solto
A multidão foi chegando:
Batatinha deu o tom
Ederaldo foi somando
E o clã baiano no céu
Logo foi se amontoando.

Raulzito, inebriado,
Sentou-se pra observar
Ao lado de Dorival
A baianada chegar
Acompanhada do trio
De Dodô e de Osmar.

A festa estava montada
Santa Dulce abençoando
E ao som da guitarra elétrica
Com os mestres no comando
A chegada de outro mito
O trio ia anunciando.

São Pedro saiu da roda 
Pra deixar a porta aberta
E nesse exato momento
A todos fez um alerta:
“Abram alas pra Moraes
Que pr’este plano desperta!”

Tímido, ele foi chegando
E no trio já foi subindo
Foi pegando o microfone
E pro seus mestres sorrindo
Disse a todos “salve salve!
Veja só que dia lindo!”

Pra manter o ritual,
Puxou o Pombo Correio
Dizendo: “sempre sonhei
Em ver esse bloco cheio
Mas cadê meu grande mestre?
Por que será que não veio?”

Certamente ele falava
Do bruxo João Gilberto
Que até mesmo lá no céu
Mantinha o hábito certo
De ficar enclausurado
Com seu pijama coberto.

Mas a comoção foi grande
E logo João chegou
Pois Caymmi, seu amigo,
Da mesa se levantou
Puxou João pelo braço
E este de pronto aceitou.

João Gilberto que estava
Calado até o momento
Disse: “Moraes você é
Sim o meu maior rebento
O grande orgulho da raça:
Receba o meu cumprimento!”

“Acabou chorare, gente!
Eu agora sou eterno
Fugi do triste Brasil
Que se tornou um inferno
Espero que o céu se mostre
Em tudo um lugar fraterno.

Deus me faça brasileiro
Criador e criatura
Nessa terra que é de todos
Distante dessa amargura
E que os meus que lá ficaram
Tenham jogo de cintura.

Nasci em Ituaçu
Lá no Sertão da Bahia 
Terra de todo o encanto
Terra de força e magia
Sou filho de Dona Nita
Que sempre foi minha guia.

Com um baiano aprendi
A arte do violão
Tom Zé, o primeiro mestre,
Deu grande contribuição
Pois pra mim a Tropicália
Foi de grande inspiração.

Com os amigos Pepeu,
Baby, Paulinho e Galvão
Tracei uma linda história
Que levo no coração
Os Novos Baianos foram
Pra mim a grande lição.

Segui dando o meu melhor
Para o carnaval baiano
E aos poucos do trio elétrico
A história eu fui mudando
À fobica eu dei a voz
E segui me alumbrando.

Com o meu irmão mais velho, 
Zé Walter, o menestrel,
Aprendi métrica e rima
Peguei caneta, papel
E logo fui descobrindo
O universo do Cordel.

Assim, fiz minha passagem
De cantor pra cantador
Exaltando o meu sertão
E esse povo de valor
Homenageei os mestres
Que em vida eu dei valor.

O grande artista do século
É o nosso Rei do Baião
Nesses versos de carinho
Exaltei nossa nação
Através do maioral:
O eterno Gonzagão”.

Foi assim que num rompante
Mestre Lua apareceu
Com seu fole de cem baixos
E a todos ali deu
Um presente: a Asa Branca
O céu todo comoveu.

Moraes Moreira chorando
Diante da emoção
Foi cantando “chame gente”
E assim uma multidão
Foi pelas nuvens pulando
Em grande celebração.

Tocaram Frevo Mulher
Depois Cara e coração
Desabafo e desafio
E Pedaço de canção
Mas o que veio depois 
Explodiu a multidão:

Carnaval em cada esquina
Só não foi mais badalada
Do que a épica Vassourinha
Que deixou embriagada
Toda uma multidão
Que estava ali deslumbrada.

Riachão também subiu
No trio causando um rebu
Carregava cachacinha
Meladinha no caju
E pegando o microfone
Foi puxando Besta é tu.

Raul, chegado ao “caju”
Sendo de pouca etiqueta
Também chegou na fobica
E tirou duma maleta
Sua gaita pra tocar
O Mistério do Planeta.

Caymmi também subiu
Preparado para a guerra
Levando João no braço
(Esse é certo: nunca erra)
Com Moraes então fizeram
O Samba da minha terra.

Depois dessa grande festa
E justa recepção
O mestre Moraes, sereno,
Iniciou um sermão
Pra todos ali presentes
Eis sua declaração:

“Sigo sendo como posso 
E mostrando como sou
Morri dormindo, e assim
Sei que Deus me abençoou.
Pela vida que vivi
Orgulhoso aqui estou.

Na minha velha Bahia
Quando era bem menino
E eu ainda digo mais:
Menino e beduíno
Com jeito de mercador
Preparei singelo hino!

Peço a Deus que nesse instante
Se compadeça do povo
Que na terra, isolado,
Quer viver livre de novo
E que essa pandemia
Deixe de ser um estorvo.

Para o povo lá da Terra
Eu só queria escrever
‘Tudo passa e em breve
Todos poderão dizer:
Abra a porta e a janela
E vem ver o sol nascer’”

Elton Magalhães, 13/04/2020

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