A disposição do consumidor para alterar a própria alimentação aparece como um dos principais pontos de uma pesquisa sobre os efeitos das dietas na biodiversidade. Publicado em 6 de outubro de 2026 na revista científica Environmental Science & Technology, o estudo estima que a substituição de carne por alternativas vegetais pode reduzir em até 34% a pegada de biodiversidade entre as pessoas que já declaravam intenção de fazer essa mudança.
O trabalho foi conduzido por cientistas ligados à Wageningen University & Research, nos Países Baixos, e analisou dados de consumidores dos Estados Unidos, do Reino Unido e dos próprios Países Baixos. Conforme os resultados divulgados no portal de pesquisas da Wageningen University & Research, a redução média estimada foi menor quando todos os participantes foram considerados, independentemente de suas intenções alimentares: 13%.
O efeito depende da intenção declarada
A principal diferença apresentada pelo estudo está justamente na separação entre quem pretende mudar o consumo e o conjunto total de entrevistados. Entre os participantes que afirmaram ter intenção de substituir a carne nas principais refeições, a redução estimada da pegada de biodiversidade chegou a 34%. Já na análise geral, que também incluiu pessoas sem planos de alterar a dieta, o índice médio ficou em 13%.
O mesmo padrão foi identificado na comparação entre laticínios e suas alternativas vegetais. Isso significa que os resultados não foram apresentados como consequência automática de qualquer produto rotulado como plant-based, mas como uma estimativa associada às mudanças de consumo declaradas pelos participantes e aos alimentos que poderiam ocupar esse espaço na dieta.
Essa abordagem aproxima a análise de comportamentos que podem ocorrer no cotidiano. Em vez de considerar apenas um cenário teórico em que toda a população adotaria uma alimentação vegana ou vegetariana, os pesquisadores observaram a intenção informada pelos próprios consumidores. A diferença é relevante porque a pressão ambiental projetada depende não apenas da existência de alternativas, mas também da adesão efetiva a elas.
Como a biodiversidade entra na avaliação
A pesquisa trata de uma dimensão ambiental diferente daquela mais frequentemente associada à alimentação, como as emissões de gases de efeito estufa. A chamada pegada de biodiversidade considera os efeitos dos sistemas alimentares sobre a variedade e a presença de espécies, incluindo indicadores relacionados à redução da abundância média de espécies e à perda da riqueza global de espécies.
Na prática, o estudo relaciona as escolhas alimentares à pressão exercida sobre os ecossistemas. A produção de alimentos ocupa áreas, utiliza recursos e pode influenciar as condições necessárias para a permanência de diferentes espécies. Por isso, uma eventual substituição de produtos de origem animal por alternativas vegetais é analisada como uma das estratégias capazes de diminuir essa pressão, e não como uma solução isolada para todos os impactos ambientais.
Os pesquisadores também destacam que o resultado pode variar conforme os alimentos escolhidos, os sistemas de produção, a origem dos ingredientes e a escala de adoção. Assim, a expressão “alternativa vegetal” não representa uma categoria ambientalmente uniforme. O impacto associado a cada opção depende da forma como ela é produzida e inserida na cadeia de alimentos.
Mais da metade não planeja reduzir carne ou laticínios
Outro dado importante do levantamento é a resistência à mudança. Mais da metade dos entrevistados afirmou não ter intenção de reduzir o consumo de carne ou de laticínios. Esse resultado ajuda a explicar por que a estimativa calculada para o grupo total, de 13%, é inferior à observada entre as pessoas que já demonstravam disposição para substituir esses produtos.
O dado também coloca a adesão do consumidor no centro da discussão. A existência de opções vegetais pode ampliar as possibilidades de escolha, mas a redução projetada para a pegada de biodiversidade depende de quantas pessoas efetivamente modificam seus hábitos e daquilo que passa a ser consumido no lugar dos alimentos de origem animal.
Como os participantes vivem nos Estados Unidos, no Reino Unido e nos Países Baixos, os percentuais não devem ser interpretados como uma medição direta do comportamento da população brasileira. O estudo oferece uma estimativa baseada nesses três contextos nacionais e nas intenções declaradas pelos consumidores avaliados.
O que o estudo indica para as escolhas alimentares
Para o público, a conclusão central é que a substituição de carne e laticínios por alternativas vegetais pode contribuir para reduzir a pressão sobre a biodiversidade, especialmente entre quem já pretende fazer essa transição. No entanto, o trabalho não sustenta a ideia de que todo produto plant-based tenha o mesmo impacto ou de que a mudança, sozinha, elimine os efeitos ambientais da alimentação.
Os resultados reforçam a necessidade de observar a dieta de forma mais ampla, considerando os ingredientes, a produção e a escala das escolhas. Eles também mostram que a mudança de comportamento é determinante para que os benefícios estimados deixem o campo das intenções e se reflitam nos sistemas alimentares. O artigo científico está disponível pelo DOI da publicação na Environmental Science & Technology.

