O som do berrante ecoando pela planície é uma das imagens mais fortes do Pantanal, e Wilson Bachega Junior, entusiasta da região, vê na comitiva que vem atrás dele um retrato vivo de como o homem aprendeu a conviver com o bioma. Em pleno século das estradas e dos caminhões, boa parte do gado pantaneiro ainda viaja a cavalo, conduzida por peões que passam dias ou semanas em marcha.
A explicação para essa permanência não está apenas na tradição, mas na realidade, ela também está na geografia da planície e no ciclo das águas que redesenha o território a cada ano.
Por que o gado precisa viajar
O Pantanal tem uma pecuária extensiva, com rebanhos criados em pastagens naturais espalhadas por áreas enormes. Durante a cheia, boa parte dos campos fica submersa, e os animais precisam ser levados para terrenos mais altos ou para outras propriedades. Na seca, o movimento pode se inverter, em busca de pasto e água.
Em muitas regiões, simplesmente não há estrada capaz de suportar caminhões boiadeiros durante boa parte do ano. Os caminhos atravessam campos alagadiços, corixos e áreas sem qualquer estrutura. É aí que a comitiva se torna a solução mais prática: cavalos e peões vão onde as rodas não chegam.
Uma equipe com funções definidas
Cada comitiva funciona como uma pequena organização em movimento. O ponteiro segue à frente da boiada, tocando o berrante para guiar o gado e transmitir sinais aos companheiros. Os animais reconhecem os toques, que indicam o momento de seguir, parar ou se reunir. Wilson Bachega Junior frisa que o instrumento, feito tradicionalmente de chifre de boi, exige fôlego e técnica, e um bom berranteiro é reconhecido de longe pela qualidade do toque.
Nas laterais, outros peões mantêm o rebanho agrupado e evitam que animais se desgarrem. Atrás, o culatreiro recolhe os mais lentos e os que ficam para trás, função que exige paciência e atenção constante. O cozinheiro costuma seguir na frente com a tralha, para que o acampamento e a comida estejam prontos quando a boiada chegar ao pouso. Acima de todos está o responsável pela condução, que decide rotas, horários e paradas.

A cozinha que nasceu na estrada
A rotina da comitiva também deixou marcas na culinária. Na estrada, os ingredientes precisam resistir ao calor e à falta de refrigeração, o que explica o uso da carne seca, do arroz e dos temperos simples. Pratos como o arroz carreteiro e a tradição da queima do alho, em que o alho é frito na gordura para temperar a comida do acampamento, estão ligados a esse modo de vida.
Wilson Bachega Junior observa que muitos sabores hoje associados à cozinha do Centro-Oeste nasceram dessa necessidade prática, preparados em panelas de ferro sobre o fogo de chão, ao fim de um dia inteiro sobre a sela.
Entre a tradição e a mudança
O ofício enfrenta transformações. Estradas novas, caminhões e mudanças na pecuária reduziram a demanda por comitivas em algumas áreas, e as longas viagens de antigamente ficaram menos comuns. Ainda assim, nas regiões de difícil acesso, a condução a cavalo continua indispensável.
Ao mesmo tempo, o interesse cultural cresceu. Festas, encontros de berranteiros e roteiros de turismo rural ajudam a preservar a memória e os saberes dos peões, que passam de geração para geração quase sempre pela convivência, e não pelos livros.
Um saber escrito no terreno
A comitiva pantaneira resume uma forma de conhecimento que não aparece em manuais. Ler o comportamento do gado, prever o nível da água, escolher o caminho seguro e entender os toques do berrante são habilidades construídas na prática, ao longo de anos.
Preservar essa tradição significa também preservar uma maneira de habitar o Pantanal sem tentar dominá-lo. Para Wilson Bachega Junior, é justamente essa relação de respeito com o ritmo da natureza que faz da comitiva um dos patrimônios mais valiosos da cultura pantaneira.

