À medida que o debate ambiental amadurece, fica evidente que a reciclagem, por mais essencial que seja, não resolve sozinha o problema dos resíduos plásticos. Marcello José Abbud, diretor da Ecodust Ambiental, pondera que o modelo centrado exclusivamente na coleta e no reprocessamento de materiais enfrenta limitações técnicas, econômicas e logísticas que impedem sua escala global.
Em vista disso, construir um sistema verdadeiramente eficaz exige ampliar o horizonte e incorporar os princípios da economia circular em toda a cadeia produtiva, do design do produto à destinação final. Descubra mais a seguir!
Os limites estruturais da reciclagem convencional
A reciclagem de plásticos esbarra em obstáculos que frequentemente passam despercebidos no debate público. Na prática, grande parte dos materiais em circulação é formada por compostos de múltiplos polímeros, o que dificulta tecnicamente a separação e o reprocessamento. Embalagens multicamadas, plásticos contaminados com resíduos orgânicos e polímeros de menor valor de mercado tendem a ser descartados mesmo em sistemas de coleta bem estruturados. Segundo estimativas da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), apenas 9% do plástico produzido no mundo é efetivamente reciclado.
Há também a questão da degradação da qualidade. Diferentemente do vidro ou do alumínio, os polímeros plásticos perdem propriedades físicas a cada ciclo de reprocessamento, limitando o número de vezes que o material pode ser reaproveitado. Conforme expõe Marcello José Abbud, reconhecer essas limitações não é um argumento contra a reciclagem, mas um convite a pensar em estratégias complementares que ampliem a taxa real de recuperação de materiais e reduzam a dependência dos aterros sanitários.
O que a economia circular propõe além da reciclagem?
A economia circular parte de um princípio diferente: o resíduo deve ser eliminado desde o design do produto. Em vez de gerenciar o descarte no final da vida útil, o modelo circular exige que fabricantes, designers e gestores públicos pensem no fechamento de ciclos desde a concepção dos materiais. Isso implica redesenhar embalagens para facilitar a separação, eliminar componentes desnecessários e criar sistemas de logística reversa que garantam o retorno dos materiais ao ciclo produtivo.

De fato, esse modelo abre espaço para estratégias além da reciclagem mecânica convencional: a reciclagem química, que decompõe os polímeros em moléculas básicas; a valorização energética, que recupera o poder calorífico dos plásticos não recicláveis; e o upcycling, que transforma resíduos em produtos de maior valor agregado. Na concepção de Marcello José Abbud, cada rota atende a uma classe diferente de materiais e condições de contaminação, e a inteligência do sistema está justamente em combinar essas alternativas de forma coordenada.
Tecnologias avançadas como parte do sistema
Processos termoquímicos como a pirólise e a gaseificação surgem como alternativas relevantes para o tratamento de plásticos sem destino viável na reciclagem convencional. Na pirólise, os polímeros são aquecidos em ambiente com pouco ou nenhum oxigênio, produzindo óleos, gases e subprodutos sólidos reaproveitáveis como combustíveis ou matéria-prima. A gaseificação, por sua vez, converte os resíduos em gás de síntese com potencial para geração de energia elétrica.
Conforme analisa Marcello José Abbud, essas tecnologias não substituem a reciclagem, mas integram um sistema mais abrangente de gestão. Um município ou empresa que adote apenas a reciclagem mecânica estará tratando uma fração do problema. Dessa forma, a combinação entre diferentes rotas de valorização, ajustadas à composição e às condições do resíduo disponível, é o que permite aproximar-se de um modelo verdadeiramente circular e eficiente.
Responsabilidade compartilhada na transição para a circularidade
Nenhuma tecnologia resolve o problema sem o suporte de um arcabouço regulatório adequado. Afinal, a responsabilidade estendida do produtor, presente em legislações europeias e na Política Nacional de Resíduos Sólidos brasileira, obriga fabricantes a financiar e estruturar sistemas de retorno e valorização de embalagens. Na avaliação de Marcello José Abbud, essa ferramenta regulatória é determinante para viabilizar economicamente a coleta e o tratamento de materiais em larga escala.
Consumidores, empresas e governos compartilham responsabilidades nessa transição. A separação correta na origem, o redesign de produtos, o investimento em infraestrutura e o fortalecimento da cadeia de reciclagem são movimentos interdependentes. Em suma, transformar o plástico de passivo ambiental em recurso econômico exige que esses movimentos ocorram de forma coordenada e sustentada ao longo do tempo.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

